A bolsa e a Vida

A Usura, ato muito praticado na alta idade média, conjunto de práticas financeiras proibidas, principalmente pelos judeus, estes discriminados e colocados à margem da sociedade, descobrem na usura um meio de sobrevivência.

Os judeus desta época eram totalmente colocados ao lado nesta sociedade, não podendo ter terras ou trabalhar nelas, não podend

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o ter nenhum tipo de comércio, descobrem na usura um meio de sustento e sobrevivência e também um meio de ganhar e muito sobre os outros.

O usurário é muito condenado pela sociedade, considerado um vampiro duplamente assustador da sociedade cristã, sugador de dinheiro e muitas vezes assimilado ao judeu descida, infanticida e profanador de hóstia.

O usurário especialista em empréstimo a juro torna-se um homem necessário e detestado, poderoso e frágil entre o século XII e XIII, passa a ser um grande problema para esta sociedade que coloca o dinheiro como sendo o contrário de Deus e a usura como uma prática injustificável, uma riqueza mal adquirida.

Nesta análise temos que levar em conta que do final do século XI ao inicio do século XIII a concepção do pecado e de penitência muda profundamente, se espiritualiza, se interioriza, a gravidade do pecado é medida pela intenção e não somente pelo ato em si.

Os pecadores são então divididos entre aqueles que cometem pecados mortais, os quais não tem salvação e aqueles que cometem pecados veniais, os quais de agora em diante passam a conhecer um novo local, criado pela igreja católica para purificar os pecadores que cometem tais pecados, estes por fim, após a morte deverá cumprir um certo tempo neste lugar para depois serem levados ao Paraíso.

Neste contexto o usurário é tido como um pecador, um homem cujo amor se encontra no dinheiro, nos bens materiais, e não na vida eterna, este para ganhar a salvação, terá que reconhecer o seu ato pecaminoso e se desgarrar dele, separar-se do dinheiro abdicar a ele para ganhar a vida eterna.

Mas o que torna da usura um ato pecaminoso, a usura é a arrecadação de juros por um emprestador nas operações que não devem dar lugar aos juros, ou seja, a usura e juros não são sinônimos, sem a usura e lucro, a usura acontece onde não há produção ou transformação material de bens concretos.

Através de algumas passagens bíblicas a usura era tida como um ato condenável por Deus e pelos cristãos da idade média. Os lideres religiosos da época faziam várias alusões à usura condenando o usurário e tentando persuadir a quem tal ato cometa a voltar atrás, como que um criminoso.

Apesar da usura ser um ato praticado por muitos judeus da época não somente os tais as praticavam, o impulso econômico levou a um crescimento enorme da circulação monetária e ao desenvolvimento do credito, algumas formas de credito foram admitidas, outras, como o empréstimo para consumo com juros embutidos, viram as antigas condenações renovadas e fixadas, e sua repressão aumentada.

Mas depois das cruzadas no final do século XII e inicio do século XIII a perseguição contra os judeus foi se aumentando o anti-semitismo crescendo e a procura por um culpado por todas as calamidades da sociedade foi agravando a situação do judeu da época. Culpados de serem os assassinos de Jesus, o ódio contra os judeus se estabeleceu em relação a estes e a usura.

Os usurários cristãos que também existiam nesta época estavam sujeitos, na qualidade de pecadores, aos tribunais eclesiásticos, aos provisionados que lhes patenteavam em geral uma certa indulgência deixando a Deus o cuidado de puni-los com a danação. Mas os judeus e os estrangeiros dependiam da justiça laica, mais dura e mais repressiva.

Existia muita condenação na idade média, muitos tabus e preconceitos principalmente pela igreja e pela religiosidade da época, não só o usurário era visto como uma profissão condenável, mas muitas outras como médico, soldado, açougueiro e muitas outras condenadas simplesmente por tabus e interpretações limitadas das escrituras.

Outra questão de relevância que devemos destacar é quanto à questão do usurário e a morte a ele é esperado a condenação eterna pelos seus atos. Aos usurários não era permitido nem mesmo serem enterrados nos arredores das igrejas. Seu dinheiro é considerado imundo não podendo de forma alguma limpá-los dos seus pecados, no caso a usura.

A igreja então encontrou uma nova forma de fazer com que este usurário pecador de pecados imperdoáveis pudesse talvez alcançar a salvação, escolher entre a bolsa e vida, escolha esta muitas vezes tida como muito difícil para o usurário mesmo à beira da morte, escolher entre ficar com suas riquezas ou devolvê-las de quem foi tomado.

Na alta idade media foi criado então um artifício que serviria não somente para o usurário, mas para toda uma sociedade que estava cada vez mais terrena e atrás das riquezas deste mundo. O purgatório que nasce junto com a reforma Gregoriana.

O usurário viveu muito mal na primeira fase dessa mudança. O usurário judeu, impelido cada vez mais a essa função pela sociedade cristã. O usurário cristão tinha escolhido dentre os valores terrestres em alta, o mais abominável, mesmo sendo materialmente cada vez mais procurado.

O quarto concilio condena novamente como os outros concílios as usuras dos judeus. O usurário moderado, ou seja, aquele que não cobra juros considerados abusivos para a época tem, portanto a possibilidade de passar através da rede da malha fina de satã, sujeitando-se lógico a sua penitencia no purgatório antes de sua entrada no céu, lugar este criado na idade média para purgar os pecados dos mortos. O purgatório não havia sido descoberto consciente ou explicitamente para esvaziar o inferno, mas na prática era o que tendia a acontecer.

Enfim foram criadas e recriadas regras não só na idade média, mas em toda a história do homem para satisfazer não somente a estes, mas a uma série de princípios tidos como certos. São impressionantes as discrepâncias que encontramos na idade média para justificar as atitudes humanas, justificar as “boas e más” atitudes do homem, o que é certo ou errado, quem dita as ordens, quem é que faz interpretar as leis morais, naturais e carnais da natureza humana? A sociedade em si, quem está no poder, o dinheiro a vida. Quando descobriremos? Ou quando realmente vamos querer saber a verdade, se é que existe uma.

eugosto

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